Acordo com um ruído monótono vindo lá de fora. Um som abafado que se aproxima e distancia, se torna música, volta ao discurso monótono. Vou até a sala e, pegando o celular, descubro que ainda são sete da manhã. Pior, sou lembrado de que é domingo, o único dia que tenho para dormir até mais tarde. Não que sete da manhã seja cedo demais. Na maioria dos dias acordo às seis, seis e dez, passo café, como frutas e algo proteico, trabalho a partir das oito, almoço no horário, à tarde treino firme, estou querendo perder gordura e ganhar massa, chamam isso de recomposição corporal. De modo que domingo é o único dia que tenho para dormir até mais tarde. Porque sábado simplesmente não consigo, estou perto demais de sexta, pilhado pelo trabalho, pelas demandas, pela necessidade de encontrar mais demanda para sustentar o trabalho e sobrepujado pelo trabalho, sobretudo pelos clientes, que, com suas dúvidas, questões e atrasos, não me deixam trabalhar. O pior é isso, quanto mais clientes, menor a produtividade. Normalmente acordo mais cedo do que gostaria para trabalhar no sábado, portanto, sendo o dia mais ou menos útil em que os meus clientes me deixam em paz. E preciso do sono para desenvolver o meu físico também, descanso faz parte do treino. De modo que não estou muito feliz em acordar às sete da manhã à força, num domingo, e muito menos pela sacrossanta igreja católica apostólica romana. Que agora se revela. A coisa tem lógica. Moro perto de um santuário. Para qual santo? Há menos de um ano me mudei para cá com a minha esposa, e até agora eles não tinham nos dado muito problema. Até fomos num churrasco ali, com a minha mãe e o marido dela, cerca de um mês atrás. Estava gostoso. Também compramos pedaços de bolo de coco numa ação beneficente e participamos do sorteio de eletrodomésticos e diversos outros produtos para a casa e o dia a dia, o mais valioso deles um laptop mediano, dá para o gasto, serviria de backup. O volume aumenta. Recitam algumas ave-marias e pai-nossos, entoam uma canção, o arranjo é medonho. A minha esposa olha pela janela e diz que muitos dos vizinhos dos prédios ao redor estão fazendo o mesmo. Mas nada se vê além disso, estamos voltados para a serra, é um dia limpo de outono, o contorno das montanhas se destaca num tom mais claro de azul contra o horizonte. Eu ligo para a polícia. Não queria reclamar de uma igreja, mas tem um carro de som passando aqui, moça, às sete da manhã. Muito alto. São orações, hinos, discursos. Muito alto, os vizinhos foram todos à janela. Nada contra a igreja, tenho até amigos que vão. Nada além do comum, os massacres, a hipocrisia. Coisas do passado, claro. Não vale a pena lembrar toda vez. Agradeço. Um ou dois minutos depois, o som para. Resultado da minha ação? Consegui deter o avanço de Gileade? Pouca importância, no final das contas o que vale é dormir. O que não consigo mais. Beijo o rosto na minha esposa e me levanto, passo o café, começo a trabalhar. Não quero perder tempo nem fazer barulho, não penso em nada mais útil. Quando ela acorda, vamos à pé até a padaria em frente ao santuário para comprar pão francês (um luxo de fim de semana) e encomendar um assado para o almoço. Nenhum movimento incomum se vislumbra para além dos portões da igreja. Imagino que, numa sociedade menos tolerante, teriam botado fogo nela por perturbarem o sossego tão cedo num domingo. Não obstante, sinto que estão à espreita. Na sombra fresca da nave, um coroinha esfrega o rosário pensando em como sou mau. Planejamos fazer também uma lasanha, pelo que passamos no mercado. O parmesão está caro, mas é o que é, vai ser de queijo dessa vez, delícia. Preciso também de vegetais, mais proteína, até 2g/kg por dia, gordura, principalmente insaturada, de origem vegetal, para diminuir a barriga. À tarde, relaxamos assistindo filmes e séries até a hora de dormir. Não penso mais na igreja, na breve perturbação que me causaram. Na verdade, me senti até melhor durante o dia por ter acordado cedo. Afinal, segunda-feira voltamos à rotina, seis da manhã em pé, é melhor não ter variações tão grandes de horário. O dia foi fresco apesar da ebulição global, e uma pequena vitória não deixa de ser uma vitória. Agradeço à igreja por ter se tornado tão fraca, no fim das contas, e me parabenizo por ter dobrado o que restou do império romano sem sair de casa, me enrolando nos cobertores, com uma conversa de menos de cinco minutos. Sem alarmes, sem surpresas. Vida que segue, amém.
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