Quem matou, quando matou, onde matou? O menino, a menina, o cachorro. Faço sob chuva as perguntas de sempre, nenhum interesse especial neste caso. Um homem ou mulher, aparentemente munido de alguma coisa. Chuva na lama. Efeitos sonoros me alcançam, sem interesse, um ganido, um estampido, um estalido, um rugido, um canto, uma música antiga, uma valsa, uma espécie de liturgia, é um culto, não, é um clube, membros mascarados, decepados, melhor, ainda sem interesse. Pessoas de bem, marginais, unidos uns contra os outros numa conspiração que tem como cabeça um chefe de estado de milícia internacional vestido de terno ou bermuda. Ele toma sol à beira da piscina, alternadamente beberica um daiquiri ou uma caipirinha. Muito calmo, uma força tranquila, serena, explosivo quando necessário, mas sereno, muito sereno. Num terreno remoto, à noite, baldio, sempre baldio. Movimento-me entre membros aqui e ali, pendentes as carnes do açougue, os porcos inteiros, os bois decepados. Um tiro, seriam fogos de artifício. Uma vez me sequestraram. Fui levado até um terreno baldio e fingiram que iam apontar uma arma para a minha cabeça. Mas no fim eram só palhaços atrás de uma encomenda, escaparam dirigindo um veículo do tamanho de uma caixa de sapatos, apertando buzinas, jogando confetes. Eu fiquei na chuva, coberto de lama. A organização criminosa fez uma chamada de vídeo no dia seguinte. Os pequenos alto-falantes emitiam aquela voz monstruosa que usam para vítimas e denunciantes anônimos no jornal. O rosto era um desconhecido meu, alguém que eu vi três ou quatro vezes num ônibus. Estava sendo perseguido? Lembrei que, quando pequeno, uma chamada assim fizera a fortuna da família em questão. Eles monetizaram, ficou viral, hoje moram na Europa. Bastante trabalho. A herdeira não quis dar depoimento, pelo que precisamos de uma ordem judicial. Ao chegar lá, mais ruídos, estática, pior, radiação. Um vazamento fizera com que o local inteiro fosse evacuado. O prédio explodiu. Sem interesse, sem espectadores. Zero curtidas. O personagem do ônibus que havia sequestrado um garoto perdeu o freio, derrapou, foi parar numa escola. Eu vi ele em algum lugar, tenho certeza. Talvez lá onde produzem essa espécie de transmissão codificada de assassinatos para a Rússia ou no Polishop. É um fio. Se vale a pena eu não sei. Se volto para casa se me sento ali. Me aguarda uma mulher loira, ela está nua, quer jogar xadrez. Uma só partida. Xeque-mate mais ou menos na mesma hora que seca o uísque. Dia seguinte, tudo de novo. Um membro, um partido, um ladrão. Justiceiros, vigilantes, chame-os como quiser. São apenas gente.
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