XVIII. Do teclado

Na idade adulta, enquanto via os meus colegas de tempos passados deste ou daquele emprego, da escola, de qualquer curso rápido ou mesmo de trilha, por exemplo, que eu costumava fazer aos vinte e poucos, progredindo na vida a passos largos, conquistando prêmios e pequenas realizações cotidianas sem interesse algum, adquiri o gosto por permanecer sentado. Não foi da noite para o dia. Eu não tinha essa predisposição, mencionei a trilha, mas praticava alguns outros esportes também, estava sempre ativo, não era exatamente saudável, mas não era um moribundo, assim como todo mundo, talvez menos. Começou com uma lesão na perna. Não sei se resultado de exercício, se torci, fato é que parecia que a tinha quebrado. Não conseguia mexer direito o joelho. Repousei por bastante tempo, me cuidei o quanto pude, mas mesmo assim fiquei coxo. Já a perna boa, a que não mancava, amanheceu um dia com um furúnculo no meio, não sei mais se na coxa ou na panturrilha. Em uma parte livre de pelos, não que tenha muito, pelo, digo, brotou uma espécie de vulcão de pus, uma estrutura roxa do tamanho de um punho, circundada de um amarelão com cheiro de fossa. Eu o vi primeiro com desgosto, depois com interesse, doía, mas era uma dor boa, isso até espremê-lo, foi a erupção. Abandonei minhas atividades. Corrida, boxe, caminhada, futebol, tudo suspenso por conta da dor insuportável que sobrevinha à ferida aberta toda vez que tocava a planta do pé no chão, planta aliás arqueada num grau absurdo, tantas vezes meus pesadelos de criança consistiam simplesmente em não conseguir tocar no chão com a planta do pé espalmada e ter que sustentar o meu próprio peso apenas sobre as pontas quebradiças dos metatarsos e o calcanhar. Assim deixei de praticar esportes, como dizem. O meu físico, que já não era grande coisa, se deteriorou muito rápido. Abracei com gosto o sedentarismo, escolhendo uma nova atividade profissional que me permitia descansar o corpo enquanto trabalhava com a mente e as mãos. Normalmente eu não gostava de trabalhar, muito menos em tarefas intelectuais, pelo que, até então, havia escolhido ocupações que intercalavam longos períodos de execução lenta a breves trocas com pessoas que não falavam muito mais que uma porta. Agora, aos poucos, fui pegando o jeito da coisa. As letras que antes dançavam diante dos meus olhos passaram a obedecer a um processo estranho na minha cabeça, alinhando-se em palavras, e estas em frases. Em pouco tempo estava escrevendo textos. Não textos sérios, textos de verdade, mas o que chamam de cópia. Uma espécie de imitação do que já foi escrito em outros lugares, repetindo palavras consideradas importantes, como queijo, por exemplo, se o objetivo era vender queijo, ou sapato se sapato, sempre atento a se a coisa toda fazia algum sentido e, se não, se ainda assim era um texto. À grafia correta, seja lá qual for. Com o tempo, até ao ritmo! Seja lá o que for. Ainda tinha uma boa idade, digo baixa, e me era dado assim adentrar o estranho território das pessoas que pensam muitas coisas iguais umas às outras e acham que tudo é uma coisa só ao mesmo tempo que cada coisa é cada coisa, sendo uma coisa especial, e que as mensagens que encontramos online significam alguma coisa além da vontade de significar alguma coisa para vender alguma coisa. Eu mesmo acreditava dizer algo, ou pelo menos pensar em dizer. Vomitava assim sete ou oito mil palavras por dia, repetindo jargões à vontade, dizendo sempre de maneiras iguais para dizer a mesma coisa de um mesmo jeito, só que diferente, queijo, sapato, queijo, sapato, queijo, sapato. E de nada me custava este malabarismo linguístico, tão eficaz havia me tornado em lançar ao ar palavras disfarçadas de ideias e vice-versa, senão aos meus dedos, que foram se retorcendo até ficarem completamente entrevados. Parece que, quanto mais os exercitava, maior era a atrofia! Os meus olhos viam, o meu cérebro processava, mas as minhas mãos já não respondiam. Deixei de escrever. Do teclado, a deficiência pulou para a vida cotidiana. Tarefas simples como escovar os dentes e tomar banho se tornaram uma luta, e fui pouco a pouco as abandonando. Dá para imaginar o cheiro. Como não podia ir muito longe, contratei um serviço de marmitas que posso pagar até o fim. Coisas aconteceram. Herdei uma poltrona do papai, literalmente, isso e mais alguns livros, e só. Digitalizei alguns, transformei em audiobooks com IA, um experimento ingrato cujo resultado não desejo a ninguém. Agora, para passar os dias, exercito simplesmente o meu gosto pela contemplação. Fico sentado na poltrona, que é grande, não posso negar, porque papai era grande, e contemplo. Enquanto ainda posso. Continuo fazendo cópia, é claro, por meio de ditado. A tecnologia ajuda muito. Não posso reclamar. Quero reclamar. Não vou. Ela está olhando.

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